Poucas horas antes, os comandados de Dunga levaram a virada da Holanda e deram adeus ao sonho do hexa. Mas os torcedores presentes no Copa Restaurante, no portão 5 do Morumbi, pareciam alheios à tristeza nacional em prol da Celeste. Depois de muito sofrimento, quando Loco Abreu mostrou personalidade ao cobrar pênalti com a famosa cavadinha, enfim, se abraçaram aliviados aos gritos de “URUGUAI”. Agora, vão vingar o Brasil na terça-feira contra a Laranja Mecânica.
Além dos ídolos, os torcedores encontraram mais motivos para torcerem por outro país. Carregam uma recente mágoa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pela briga política com a diretoria são-paulina. A entidade máxima do futebol brasileiro decretou recentemente que o Morumbi está fora dos planos para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil.
Especula-se que a decisão foi tomada em retaliação ao apoio a Fábio Koff para a presidência do Clube dos 13, cuja chapa era rival de Kleber Leite, apoiado por Ricardo Teixeira.
Mesmo com todos esses elementos, o amor dedicado ao Uruguai chega a impressionar. “É coração pulando, mãos suadas... estava quase tudo perdido, com a arma na cabeça, mas a arma falhou”, comemorou o jornalista Luis Fernando Guiodi, de 36 anos.
Para ele, o sentimento pelo Uruguai é bem mais forte que pela seleção brasileira. “Tenho ídolos no Uruguai e não me identifico com o Brasil, a não ser com o Luís Fabiano e com o Kaká. Não deu liga. O São Paulo também está em guerra com a CBF. Quando vejo descendo do ônibus Ricardo Teixeira e Andrés Sanchez fico desanimado.”
O mesmo sentimento tem o contador César Mendes, também de 36 anos. Apesar do esforço de Dunga, ele ainda vê a seleção bem distante do povo brasileiro e aponta os desentendimentos entre São Paulo e CBF como entraves. “Tem toda a história do Morumbi e o chefe da delegação é o Andrés Sanchez. Se ganhasse era capaz de dizer que seria o titulo do centenário do Corinthians”, afirmou.
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“Já torci muito pelo Brasil, mas nas duas últimas Copas me afastei. Em 2006 fiquei mais feliz pelo Zidane, um dos maiores jogadores que vi em campo, diante daquele time de mascarados. Este ano a equipe até lutou mais, mas não tem ninguém jogando no Brasil. O Robinho está no Santos por acaso”, completou.
Mas antes de comemorar, os “tricolores uruguaios” passaram por muito sofrimento. Já no primeiro tempo, tiveram calafrios com o cabeceio de Ganense Vorsah e o chute de Gyan. Aos 38 minutos, a saída do capitão Lugano com dores no joelho gerou grande preocupação, mas eles se mantiveram confiantes. “Lugano não se machuca nunca. É o Chuck Norris”
Com a proximidade do fim do jogo, a tensão foi aumentando e na mesma proporção as reclamações contra a arbitragem. “Fifa e CBF são tudo a mesma coisa”, dizia um. A partida foi para prorrogação e o desejo geral era que acabasse logo nos pênaltis. Mas ainda estava para acontecer um lance capital.
Mesmo expulso, Suarez virou ídolo ao evitar com as mãos o gol certo de Gana debaixo da trave aos 15 minutos do segundo tempo da prorrogação. “Defendeu Suarez, ele fez aula com o Rogério Ceni”. Na cobrança do pênalti, foi o goleiro Muslera quem se transformou no maior ídolo tricolor da atualidade. “Vai Rogério”, gritou o torcedor com uma bandeira em homenagem ao camisa 1.
A decisão iria mesmo para os pênaltis. O erro de John Mensah na cobrança acendeu a esperança Celeste, que novamente precisou se conter com o erro de Maxi Pereira. Mas Muslera novamente apareceu no chute de Adiyiah. Na última cobrança, foi o botafoguense Loco Abreu, com a estilosa cavadinha, quem levou os tricolores aos gritos: “U-RU-GUAI”.